Lailson Bandeira

Idéias de (mais) um computeraholic

Porque eu odeio traduções

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Eu sempre prefiro ler um livro na sua versão original. (Claro que nem sempre é possível, mas como a grande maioria dos livros que eu leio é em inglês, acabo não tendo maiores problemas.) Isso pode me fazer parecer pedante, mas acredite, eu tenho bons motivos…

1. Traduções normalmente são cheias de erros

Há alguns anos, li o (hoje clássico) Don’t Make Me Think, do Steve Krug e, pra variar, achei o livro fantástico. Recentemente, resolvi lê-lo novamente, desta vez usando a tradução (gentilmente cedida pelo meu amigo Guila). Posso dizer que a experiência foi, no mínimo, frustrante.

A versão traduzida até consegue manter o tom informal e divertido do original, mas está simplesmente cheia de erros gramaticais, alguns sutis, outros nem tanto. Nem preciso dizer o que acontecia com a minha confiança nas palavras do autor cada vez que eu encontrava um erro destes.

Quando o material contém fórmulas matemáticas, é pior ainda. A tradução do Redes de Computadores e a Internet, do James Kurose, me fez errar algumas questões da prova de Infra-estrutura de Comunicação, simplesmente por que as fórmulas na versão em português foram copiadas de forma errada. Como se não bastasse, o tradutor também se atrapalhou com algumas sentenças negativas…

Eu não sei o que acontece, mas claramente falta revisão. Não acredito que os tradutores sejam tão estúpidos a ponto de errar coisas básicas da língua portuguesa ou que copiar uma fórmula seja tão difícil. Certamente, por questões mercadológicas, o cronograma destas publicações é apertado, mas nada, absolutamente NADA, justifica falta de revisão em qualquer publicação.

2. O projeto gráfico é devastado

OK, na teoria o que mais importa em um livro é seu conteúdo, mas todos sabemos o quanto o projeto gráfico pode deixar a leitura mais fácil e prazerosa. E particularmente, isso importa muito pra mim. (Acredito que para a maioria das pessoas também, só não sei se conscientemente.)

Afinal, um livro bonito, com ilustrações bem feitas, tipografia cuidadosa, papel de qualidade, são indicativos de que tanto o autor como a editora se esforçaram para me trazer a melhor experiência de leitura. Poxa, eles se importam comigo! E eles acham também que o conteúdo é tão bom que vale todo esse esforço…

Eu lembro como o Don’t Make Me Think original é bonito. O livro tem uma capa resistente, as folhas são em papel glossy, as ilustrações são coloridas e cada seção é aberta com uma distintiva página vermelha setada com a bela Meta. A tradução? O pessoal da Alta Books pensou que tudo isso era frescura; do projeto original só ficou mesmo a capa. E o livro perdeu metade da graça!

3. Traduções normalmente são desatualizadas

Mesmo com um cronograma apertado e uma revisão capenga, traduzir um livro inteiro demora muito. Demora tanto que, em certas áreas como informática, a tradução sai justamente quando uma edição seguinte do original está sendo lançada. Dessa forma, quem lê a tradução está sempre anos atrás de quem se baseia no original. E por que usar informação antiga se eu posso ter a nova?

Mas peraí, não são todas as traduções…

Dito isso, não são todas as traduções que sofrem destes problemas. Harry Potter, por exemplo, além contar com a excelente tradutora Lia Wyler, é publicado por uma editora que se esforça para manter o design original (embora nem sempre consiga). Além do mais, não é um tipo de obra que fica obsoleta com o tempo.

Algumas traduções são tão fantásticas, que podem ser até melhor que seus equivalentes originais. (Embora eu não consiga me lembrar de nenhuma agora. Se alguém souber, por favor me fale.)

Observo que estes problemas acontecem bastante nas publicações de informática e design, que são os assuntos que leio com mais freqüencia, mas não sei como isso se dá em outras áreas. (Será que é assim também com os livros de direito?)

Infelizmente outro fato que contribui é o preço: por serem produzidas aqui, as edições em português são muito mais baratas e fáceis de encontrar. Fora que não é sempre que dá pra esperar três meses por uma encomenda da Amazon… Mesmo assim, ainda fico com os originais.

Written by lailsonbm

fevereiro 14, 2009 at 20:44

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Nerd is the new sexy, baby

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Bem, como todo bom nerd, eu sou fascinado por documentários sobre máquinas e computadores. E eu não estou sozinho; pela quantidade de filmes deste gênero que têm sido produzidos ultimamente parece que há muita gente querendo vê-los também. Bom para nós fãs… =)

Mas o filme que me inspira esse post não é lá dos mais novos. É um documentário de 1996 — quando eu tinha 8 anos e nem sabia direito o que era um computador — chamado O Triunfo dos Nerds (Triumph of the Nerds: The Rise of Accidental Empires, originalmente). Encontrei-o por acaso (como quase tudo que encontramos hoje via Internet), achei interessante e resolvi assistir. Que belo achado!

O filme conta a história do PC, desde a invenção do Altair 8800, em 1975, até sua popularização. Para aficionados como eu, claro que é sempre bom assistir a uma nova versão dessa história. Mas o que fascina nesse documentário é que ao invés de apenas contar a história do PC, ele acabou virando parte dela. Deixa eu me explicar.

Como qualquer material que se proponha a falar sobre o PC, estão lá as figuras mais importantes da época — a maioria ainda famosa hoje, como Jobs e Wozniak (da Apple) e Gates, Allen e Balmer (da Microsoft), dentre outros menos populares. Claro que esse pessoal não iria se contentar em apenas contar os fatos; eles tinham que fazer suas previsões também. E é aí que o negócio fica bom.

O espectador está, então, em uma ótima posição: acompanhando o registro de uma época, pode-se fazer um belo retrospecto, ao mesmo tempo em que sabe-se como a história continua, permitindo avaliar quão certa estava a visão de cada um desses gurus quanto ao futuro.

O que vemos então é um Jobs cabisbaixo, ainda inconformado de ter sido demitido da empresa que ele mesmo fundou, uma Apple em maus lençóis e um Bill Gates radiante, dono da maior e mais pop empresa de software do mundo, ainda eufórico por ter conseguido passar a perna na IBM.

Bill Gates em 1996

Bill Gates em 1996

Um trecho do depoimento dele é particularmente interessante. Depois de alguns dos seus colegas falarem como, apesar de ter conseguido construir uma gigante, Gates ainda é inseguro e paranóico, ele solta: “If you just slow down a little bit who knows who it’ll be, probably some company that may not even exist yet, but eh someone else can come in and take the lead.

Na mosca! O Google seria fundado apenas em 1998 e eu não estaria errado em dizer que ele corresponde hoje ao que a Microsoft correspondia anteriormente à IBM. Talvez o único erro do Bill foi achar que poderia evitar esse processo. Isso não é apenas irônico. É uma lição pra qualquer um que trabalha com tecnologia.

Cada vez que eu assisto a documentários como esse tenho a oportunidade de relembrar como as coisas no negócio da alta tecnologia (para usar as palavras do Gates) são passageiras e como também a sorte e o acaso são players fundamentais nesse jogo, muitas vezes superando até mesmo qualidade e competência. Pra mim, a falha de muita gente está justamente em não entender esse ponto. Vai ver que é por isso que eu gosto tanto desses documentários…

Written by lailsonbm

fevereiro 7, 2009 at 22:55

Será que a Lei de Gérson virou mesmo patrimônio nacional?

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Já faz tempo que eu penso em ter um blog. Se grande parte dos meus amigos têm um, por que eu não entro nessa também?, pensava eu. Simplesmente por que eu não sentia que tinha algo a dizer e, de qualquer modo, o mundo não precisa de mais um blog vazio. Mas aí veio a gota d’água. O que vi hoje me fez pensar um pouco e acabei percebendo que sim, eu tenho muito sobre o que escrever e isso pode acabar até sendo bem divertido. Ao protesto, então.

Assisti há pouco no Programa do Jô uma entrevista com o Sr. José Raimundo Cavalcanti — ou Zé Sozinho, como é mais conhecido. Não assisti ao começo da entrevista, mas ao que me pareceu ele é um admirador do cinema, conhecido no Ceará por organizar modestas sessões de cinema em pontos remotos do estado há vários anos, na base do monte seu projetor em um bar e anuncie com uma caixa de som em uma bicicleta.

Até aí tudo bem, é um ato louvável levar cinema a pessoas que, de outra forma, não teriam a oportunidade de conhecê-lo. Naturalmente, ele cobra ingressos para quem deseja assistir às sessões. Continua tudo certo, afinal ele precisa sobreviver e nada mais justo que cobrar pelo seu trabalho, equipamento, filmes, custos operacionais…

Mas o que me chamou atenção foi quando começaram a ser mostrados trechos dos filmes apresentados. De repente, logo após aparecer Jesus Cristo carregando uma cruz, surgia na tela um homem caíndo de uma construção, após levar um tiro. Depois ele explicou que ele tinha introduzido uma cena do Zorro no meio da Paixão de Cristo, já que as pessoas reclamavam que “o filme não tinha emoção”. Aí era só inventar uma história qualquer, que ninguém nem percebia nada (!). Como assim?!

Alguns certamente vão argumentar que eis aí uma manifestação da criatividade do povo brasileiro e blá, blá, blá… Desculpe, mas pra mim isso é trapaça, mentira, enganação. Mas vá lá, vamos assumir que ele estava apenas realizando um desejo popular. Foi a própria freguesia que pediu e ah, o cliente tem sempre razão.

Pior foi o que veio em seguida. Como eventualmente ele não conseguia alguns filmes de sucesso, para os quais havia grande demanda, o jeito era mudar o nome de alguma película que ele possuía e mixar alguma cena de outro filme, para parecer que era diferente. Ele também não teve vergonha alguma de dizer que eventualmente, no meio da projeção, inventava que o projetor estava com defeito, para não mostrar o final de um rolo avariado ou incompleto.

E, a cada vez que ele dizia algo desse tipo, era ovacionado pela platéia, incluindo o próprio Jô. Eu simplesmente fiquei indignado. Pra mim, isso é trapaça, mentira, enganação. A mesma de quando alguma loja maliciosamente te vende algo quebrado. Fiquei me questionando se as pessoas aplaudiriam isso também. Era como se a posição social dele justificasse isso plenamente, e ele, coitado, tinha sido obrigado a trapacear, mentir, enganar pra sobreviver. A mensagem que fica pra mim é: se você é pobre, ok, não tem problema fazer isso não

Me impressionou também o modo desdenhoso com que ele contava os causos. Ele parecia ter orgulho disso. Ele tinha orgulho disso. Afinal, ele foi esperto. Ele levou a melhor. E foi aí que eu me dei conta que a Lei de Gérson virou também patrimônio nacional. Assim como o Sítio Histórico de Olinda em Pernambuco, ou o Parque Nacional da Serra da Capivara no Piauí, a Lei de Gérson vai logo ser tombada. Como a platéia do Jô — e ele próprio — as pessoas a admiram e, como consequência, a praticam. E olha que tem mais gente enaltecendo as qualidades desse senhor aí hein…

Bem, eu não sei como é lá fora, mas esse negócio do jeitinho brasileiro me parece absurdo. Essa mania de querer levar a melhor em tudo é, pra mim, nada menos que imoral. De novo, é trapaça, mentira, enganação, seja praticada por rico ou por pobre. Podem me chamar de inocente, ingênuo, mas a verdade é que eu acredito na honestidade. Eu só quero o que me pertence, nada a mais, nada a menos. Se você pensa como eu, por favor, passe a mensagem adiante e torne o mundo um pouquinho melhor.

Written by lailsonbm

dezembro 18, 2008 at 02:30